Não mais do que cinco, nem menos que seis

Não mais do que cinco, nem menos que seis

LÚCIO MOREIRA ANDRADE

GUARAPARI, 15 DE OUTUBRO DE 2009

Poucas vezes a gente encontra a maturidade dos escritos e neste caso com a autorizacao de um rapaz com mais de 16 e menos de 18 anos escreve com alta qualidade e numa lingua que ate agora conheco e me aproximo, Um rapaz que descreve o sonho de um velho e suas lembrancas com alta qualidade de descripcao. Paraben e que os leitores saibam apreciar. Feito por LÚCIO MOREIRA ANDRADE
GUARAPARI, 15 DE OUTUBRO DE 2009
Nossa rapaz
 parabens
 é a simples palavra que le posso dizer a tao excelente escrito
 da historia daquele velho que frente ao espelho dos sonhos fica nú para se encontrar com o cotidiano
 que é capaz com teu excelente portugues
 de descrever cada instante e te levar a ver cada CcOisa que velinho enxergava
 alias, eu nao conhecer muitas das palavras que voce sabiamente coloca no devido lugar
 me leva a ver o que ele  ve
 o leva a enxergar uma visao
 nao uma uma visao simples
 te portugues e fino
 é exquizito em espanhol, ou seja de melhor qualidade
 me sinto admirado frente capacidade de um rapaz com mais de 16 e menos de 18
 capaz de escrever desse jeito, por isso eu publico este escrito de meu grande e estimado amigo….

Das estórias, deu-se esta confabulia… 

 

            Acordou cedo, cedo-cedo, mais do que antes. Escuro estava ainda, sem luar de brincar de pique. O relógio, não era mais do que cinco, nem menos que seis. Flor dormia em um fino ronco de suspiros, leves como buás. Já estaria para além do sétimo sono. As chinelas de pelúcia repousavam sobre o tapete, e este sobre o chão. O mar, frente-frente, dentro da moldura de uma janela, das poucas de madeira que por ai ainda são feitas.

            Levantou, em sua calvície. Passou a mão sobre os fios disposto a arrumá-los. Desistiu da idéia. Tudo mais que escuro: escuro embaçado. Do criado companheiro, guarda-lados de cama, tirou os óculos, dióptros do dia-a-dia. Fez-se o mundo, sem luz. Não mais do que cinco, nem menos que seis. Fez o tíqle da botonhela do abajour-guardador. Fizeram-se, da luz, suas chinelas. O mar, ali emoldurado, detalhe mais que não era.

            Aproveitar a vida naquele momento? Talvez não. Tantos anos esvaíram-se. Quantos quantos e quantos porquês teriam ficado no limbo? Fosse tarde talvez, não tão tarde, mas tarde, mais além do que passara e do que passaria. Quantos anos mais? A vida terminal: uma dúvida infinitesimal sobre as pontes que cruzam o rio.

            Não era velho: era meio mítico, meio estragado. O que não passara o fizera assim, dolorido por dentro, doloroso com sonhos, mais intimista do que vidadista. Os pontos não iam além do que entendia e risco era fator nunca bem-vindo. Apesar de ser assim, fez sucesso no que não se propunha ter sido. Foi gauche na vida porque quis ser Carlos; e talvez mais que um poeta-poesia – um ator. Fracassado. Fracassado por ser o contrário do que no íntimo queria. Fracassado por ser o outro. Fracassado por ser o seu outro. Pensava em aléns aquém do aqui, retrógrado que era. Mas de tanto pensar e não fazer, parte por ter medo, foi o que nunca quis ser.

            Se reclamasse de sua displicência, mereceria tabefes. Era fadigado por uma dor interna, mas por fora tudo o que pudera lhe vir ver viera. Brotaram, talvez das mãos, o dinheiro e a bela mulher que, ao seu lado, dormia, apesar de advérbios de tempo e conjunções adversativas. Tantos anos de casados e ainda eram felizes, mas nem um, nem outro, nenhuns, sabiam de arder-amar. Eram sorrisos de fraque e vestido e todos que amavam ali viam espelho. Tiveram filhos, belos filhos, inteligentes filhos, festejados filhos, ajuizados filhos, filhos de um tudo. Mas se reclamasse de sua condição mereceria tabefes. Os netos ainda não haviam chegado e ele não se pensava vovô. Tão cedo não chegariam. Terminaram os filhos os seus cursos de vida em cheques de seu floreio e já engatinhavam, como bebês, para a vida. E ele bem sabia de vida, e dela, as marchas-progresso. Mas, aceito, foi pela estrada das conveniências sem retrocessos, turvolínea.

            Sentado na beirada da cama, calçado das chinelas com os pés trocados em desatentície, mordeu o travesseiro. Por que aqueles pensamentos agora? Não sabia. A dor, companheira de uma vida, dor que não doía, aparecia menina e chutava-lhe o peito. Era maior que dor de enfarte e mais rápida que causo corrido. Dor que não doía, mas como se quisesse dizer, retumbava. Teria tomado pílulas de metafísica?

            Da família, além filhos e Flor, não falava. Não falava. Nada. Tudo, para ele, recomeçara sem prólogos de reticências. Em seu livro, nem poesia de introdução e nem prefácios aventureiros. Com os irmãos, tempos muitos, já não falava. Amarelaram nos álbuns de fotos guardados no criado-amigo trancado, guarda-lados de seu sono intranqüilo, não falado nas olheiras matinais. Os pais, quais as fisionomias muito eram sua fôrma, eram passado, tanto passado, tanto pretérito, que suas figuras já eram nas memórias fumaça branca, brumosa, talvez turva – quem sabe? Se saudades sentia, ou mais do que isso, não dizia. As palavras que não convinham eram sepulcros.   

            Enfim, levantou e caminhou até a janela arrastando as chinelas. Não mais do que cinco, nem menos que seis. Abriu o quadro, deixando escapar o frio-molhado do ar e deixando entrar aroma de mar-maresia. Esticou as madeixas de sua coroa romana, esbranquiçada, grisalhada, só em grisos, pondo-se outra vez a tentar arrumá-las. Os porquês teriam sentido naquela etapa da vida? Por que agora brincar de Clarice e engolir seus próprios fluxos de memória? Tantas perguntas que a si nunca quis fazer e que agora o sobrepujavam.

            Voltou-se à cômoda, despiu-se por inteiro preservando as cuequinhas, vestiu os sintéticos, chutou as chinelas para o alto em ira desvairada e pisou com os pés no chão. Como um meninico, correu pelo resto do quarto, fechou a porta para não acordar Flor, correu o corredor, o escritório, o outro corredor, a salinha, as escadas, o salão, a entrada, a garagem, o jardim, abriu o portarão de rua, disparou o alarme, voltou à varanda, desligou os sensores, desceu a escadinha, chutou a cadelinha que na calçada de passagem dormia, tropeçou nos anões de jardim, abriu o portarão, correu a calçada, a rua, a outra calçada, pulou na areia da praia e beijou os lábios do mar que todas as noites, pelas molduras da janela, vinham beijar-lhe o rosto dizendo de seus boa noites. Se mais cedo fosse e alguém o visse, de certo, nas estórias que os vizinhos contam aos netos nos almoços de domingos, regados com frango de padaria e tutu mineiro, seria um eufemismo em forma de epíteto. Ainda escuro, sim, mas alguns raios, pobres raios, raios fracos, escassos raios, chamavam pela Lua; pediam-na a contradança. Vai-se, menina, vai dormir que ainda é cedo e o dia mal começou.

            E ele sentiu na boca o gosto forte dos cloretos, e fechou os olhos como se criança fosse e tivesse sonhos maiores que suas próprias vontades. Lembrou dos castelos, das areias, dos beijos-meninos, dos doces-selinhos, e quis voltar, não para casa, não para a glória de insucessos, não para a vida de medíocre valia. Queria voltar, pontuar os períodos, os segundos, os minutos, as horas de uma vida perdida em eterno cargo de aprendiz que não tivera nunca. Aprendiz dos próprios erros, como o que quer vir acertar a falta de escrúpulos gramaticais de uma vida. Se pudesse, voltaria… se pudesse, voltaria. E fechou os olhos pedindo com a maior veemência, e pedindo que lhe fosse o maior gozo, e o maior sol, e o maior momento, e que fosse maior do que sua dor, do que seu peito, que fosse sua vontade, um momento, um ponto, uma chance, um afago, uma vontade, um abraço e que naquele instante a vida trespassasse em seus olhos todos os quadros do que fora e do que teria sido, em um eterno rebobino, em um lapso sem itinerários, o passado repassado à limpo. Mas nada mudara, a não ser as imagens da míope retina, agora novamente embaçada. Beijaram os óculos o mar e deixaram-se carregar nas ondas calmas das viradas de Iemanjá.

            Ajoelhou no raso e novamente pediu. Pediu que mudasse. Pediu e viu Deus, Deus, O Deus que nunca viera e em quem nunca acreditara. Miragem era Deus, era miragem. E esvaiu-se a figura em fulguras atéicas de sua cabeça. Por tantas, não mais do que cinco, nem menos que seis, os raios pobres, raios tímidos, eram como uma miragem em película, um filme velho de rolo e de baú, de cor chuviscada, do casamento de pais, da conquista do tri. E sol já se fazia e o escuro já se sumia, e com ele seu aconchego. Engoliu em seco o medo tresmalhado que nem mesmo sabia ter, mas que lá no fundo, brincando de pique-pega com Freud estava. Longe, mais que longe, ouviu gritos jovens, jovens gritos de criança, puros e impúberes, gritos ruidosos.

            Abriu os olhos. E tudo que ali se via antes, e que depois também seria visto, e depois dos depois, já não estava. Tudo o que vira; tudo sumira. E tudo era o novo, e toda a história passara. E toda casa e criatura eram como antes foram. E tudo era novidade. Era como lona e picadeiro quando chegam os palhaços saltimbancos sobre caminhões cantarolantes e máquinas de algodão doce rosa. O antes que escondera. E o antes de sem volta, que poderia vir em mente e em dor, era claustro seu e sozinho. Viera tudo, perfeitamente e hermeticamente em um cubo fechado de tempo. E os olhos já não eram o embaço e tudo viam do longe, que não vinha porque caminhava em passos lentos de bebê novinho quando aprende a vir ver. Levantou, esparramando mil gotas mais, e riu, e chorou como o quem que não sabe o que faz. Louco retrógrado! Louco viera! Louco passado! Louco salgado!

            Ganhou liberdade e brotou das veias a vida. Pontuar por onde, e por onde, e o que dizer? Flor teria sumido? E os filhos? E a casa? E a cadelinha? E os anões de jardim?  E a vida? Em que raio de limbo estariam esquecidos?

            Mais um momento… ; seria libertinagem, liberta, liberté, viver? Não, não seria libertinagem. Caminhou passosamente, de um curtio e de uma idade que suas não eram. Beirou os lábios de mar, andando em uma calmaria sôfrega, não tão sôfrega como fora toda sua vida escondida, restrita, limitada em si e em seus sis mesmos. Deparou-se com a imagem da infância, os barquetes e as taineiras presas às pedras da praia pequena, Prainha de São Pedro, em outros tempos além, apenas Praia do Meio.

            Ali passara os melhores momentos da vida, momentos que escondia. O cotidiano impera mais que a própria realística. Comprara a casa branca que, há tempos de infância, admirava pela resplandecência e nela fizera um verdadeiro mausoléu de vidas e era a única coisa realmente velha e distinta que teimava em não tombar naquele canto perdido de braço de terra-mar e porta de enseada. Tornara-a o seu museu sem ouvidos, sem olhos, sem cor e sem gosto. Não sabia Flor da esquisitice do marido e pensara que a compra era mais investimento futuro. Acabara, no entanto, tornando-se residência familiar quando viu que a velhice trotava legionária. Flor, coitada, pobre Flor, que amava, ou achava amar, não sabia por minúcias o sôfrego próprio do marido. A coroa romana, a face ríspida, flácida no riso, o cheiro de Senador eram um menino de tempo perdido. O que poderia ter sido e não foi por ali estava escondido e, em tantos anos, para Flor e para os filhos, jamais havia aparecido.

            Aproximou-se do primeiro barco e o dia já era menino. Rocambolos, um homem e seu filho brincavam no “convés”, se assim fosse chamado. O menino, gordo e de uns quatro anos, chorava o carrinho que Iemanjá mandara buscar e que as ondas já levavam bem distante. O pai prometia um novo assim que voltassem ao centro da cidade, naquele mesmo dia. Sabe como é criança, né camarada? Como aquele carrinho, carro-barco, jamais veria outro igual durante a vida…

            Em sua lembrança, algo como isso acontecera. Era vívido e encorpado como ele, aquele meninico, e brincava nos barcos da praia com seu pai nos finais de semana e tempos de saco cheio do governo. Perdera assim um carrinho que ganhara nas machinas que haviam chegado à cidade naqueles tempos e que faziam um enorme sucesso com moedas inoxidáveis e novas de real velho. Via no choro daquele faustino talvez seu próprio choro de quando menino. Não muito chorou durante a vida, ainda mais quando passou a encarnar o papel-vida que acompanhara com afinco. Sobretudo, quando criança, chorava com maior regularidade; não muito, mas periodicamente – em intervalos de tempos em tempos, quandos em quandos, quandos em vez. Talvez, por não ter chorado o devido e talvez só por ser, em dentro, homem em lapsos de choramingo, sentia a dor pontuda, apertada, amarelada de tempo, traçada de baú, de ser o que realmente se é em si mesmo sem ter a intenção de assim se ser e para o mundo fingir ser o que não se é e o que nunca se foi e o que nunca quis ser.

            Subiu as escadas que separavam os domos de areia de um cume da calçada rústica que ali estava na infância. São Pedro abençoava o beira-mar em uma pracinha ali que os pescadores ergueram. Os prédios de seu tempo moço-restrito, moço-velho, não existiam em uma miopia que ainda nem vinha. As casas, muitas ainda rústicas, ali ainda estavam, inclusive a sua, dona de um período áureo que via lanches no píer próximo e burocratas da Telest fumando cubanos nos terraços, que transformara em um verdadeiro jardim de bonsais que encantava as janelas, sobretudo as turistas, que o viam nos dias de veraneio. Perguntavam como não torrava com o sol e a maresia; respondia que talvez fossem sintéticos como sorrisos.  

            Na rústica calçada, alguns pescadores descamavam os peixes sobre isopores. Há tanto já não se via mais aquilo. Os tempos mudam rápido, trotam em ligeiresa, não esperam fotografias que envelheçam. Olhou peroás baratos, que em tempos depois normais quase não seriam mais encontrados, e um ou dois peixes pontudinhos que não sabia o que eram. Ainda havia ali vendedores do coco natura, coco paposo, coco de comer o branco com colher, coco que em sua época terno-e-gravata não se veria mais pelas ruas; apenas, dele, uma água jocosa, talvez até sintética, feita de um pó de tantos mil alquímicos duvidosos. Meteu a mão no bolso da bermuda, sintética, e não encontrou a carteira. Iemanjá depositara a oferenda. Se pudesse, teria comprado daquele coco e sentido daquele gosto uma única vez que fosse só. Mas não pôde. Não há dinheiro no mundo, não há, que ande de sonho em sonho, mas sim de mão em mão, vendaval em vendaval, bancas em bancas. Não há dinheiro que resista às oferendas.

            A rua ainda não tinha asfalto, cavalo de progresso de petróleo fundido. Nem paralelepípedos, nem hexagonóides, octagonóides, nada. Terra batida com areia e conchinhas silicosas. A tudo, maravilhado, assistia. Engolira uns litros de água e teria morrido afogado? Céu e inferno? Céu? Inferno. Nada. Sonho? Ora, por que sonho, se os sonhos em sono são nada?  E tudo parecia bem realístico. Mas queria aproveitar o momento, e pecar, e agradecer por Flor não estar ali, e seu dinheiro, e por poder pecar e ser pecador sem culpas, e seu tudo, que na melhor das hipóteses, era seu nada.  Enterrar os pés naquele chão batido, naquele chão que o beato há tantos anos pisou e fundou e chamou de terra da Santa Maria do Guaraparím. E todas, todas elas, todas as castanheiras do beato estavam de pé, todas, e todas pomposas, com imensas copas, frondosas, folhosas de um verde-farda-de-general. Sentiu uma das castanhas cair do seu lado, voando uma gota do sumo em suas pernas. E sentiu o mesmo cheiro das maresias das manhãs, mas cenicamente diferente, o que fazia do agradecimento de cada um segundo instantes de devoção supremo ao não se sabe quem. Enterrou os pés na terra batida regada de conchas como se massageasse o ego perdido em um ponto esquecido.

            Talvez fosse uma brincadeira da cabeça. Estaria em coma em um hospital depois de surtar e correr como louco para um lábio de mar e rachar o crânio ou a cervical em três pedaços. Não. Era real que doía na espinha dorsal. Sentia cada momento para além dos tique-taques dos segundos, dos minutos e das horas. Não haveria cuco no mundo que o faria mudar as idéias.

            Precisava sair daquilo tudo. Um momento de fosforescência falava em voltar. Mas os pés agarraram ali como raízes que arrancam os ladrilhos jecas da calçada, os muros das casas e seguram encostas. Não iria a qualquer parte para além daquele mundo nem arrastado pela própria consciência, consciência pobre e insana que se agoura em arrumar as calvícies com gel para que sejam mais ríspidas, e gélidas, e sem vida.

            Um grupo de meninos brincava mais para alá, na frente, além da pracinha e do São Pedro estauta do manto bege, como diriam os pescadores gorós da aldeiela. E choveu, talvez porque o sol e as nuvens esperavam vívidas por festa que há muito não conseguiam fazer. Os coquistas correram com suas pencas-mil de cocos, e os pescadores com seus isopores, e os outros com cabos de vinte-trinta peroás semi-frescos.  O que parecia o infortúnio de quem ali ganhava a vida com cocos e peixes, para os jovens, nada mudava.  E viu que não eram bem jovens, mas aquilo que sucede o período, aquilo que reclama pelas bocas, ventas e corpos. Os meninos, por assim dizer, sem camisa, gritavam na chuva, e as meninas, por assim dizer, pulavam e jogavam sabão de caixa sobre o chão de ladrilhos azuis e escorregavam todos, meninos e meninas, com as bundinhas até a ponta além dos olhares do santo pescador. Riam sem escrúpulos, felizes por suas vidas, felizes por suas chuvas, sem misericórdia de seus pobres observadores, regados de coco e de pescados, sobre as marquises das veraneias, fechadas naqueles dias estranhos. Apenas.

            Mas as águas que escorriam estavam às voltas. E não desciam, e não subiam, nem mesmo estáticas pareciam. Alagavam as conchas, a areia, a terra, os pés, e tudo virava bloco, e cimento, e asfalto, e progresso. E os galhos caíram como caem e andam os ponteiros. E os meninos viraram homens tribarbados de ternos e as meninas calçaram seus equilibrativos saltos e não se viram resignadas às obrigações de suas mães. Porque o tempo, o tempo muda e não perdoa. Porque o tempo, o tempo, não se pontua. Porque o tempo é subjetivo, e em sim mesmo, atemporal; jamais permutativo.

            E tantas mudanças pinbobordavam ali. E andaimes levantaram prédios e minutos e vidas passavam como rocamboles feitos para frente. E tudo tão rápido, e tudo tão cético, e tudo, de um tudo, em tãos e tãos… mas a chuva havia passado, e a  praça já não tinha jovens, crianças, jovens-criança, e não mais havia ladrilhos azuis, que brincavam do celeste ao prussiano; havia duas ondas de concreto armado e São Pedro estatua era monumento cível-social, dentro das redundâncias das burrices da burocracia pseudo-politica, pseudo-intelectual. Trocara seu manto por um de outra cor qualquer, que agora, passado tempos, a miopia, que não existia, reverberava lentamente, e tomava, e perdia, e embaçava a visão e da visão, o pensamento.

            Um moçoilo, de terno e gravata, apanhava ali, onde criara raízes, um ônibus. Usava óculos bem tênues e tinha a face um pouco ríspida, mas com cara de vida e com cor de vontade. Levantou-se com veemência do banco e parou o Mercedão amarelo. Não poderia ele próprio ser atemporal, e viver o vento, a chuva, e sobreviver a tudo com subterfúgios. E cada minuto passado, agradecia por ter mudado, mudado para longe, mudado para não se sabe onde, mudado de um tudo, por mais que tanta mudança digerisse o que havia por dentro brotado, o que lhe fora dor e não voltado em pouco tempo, e tudo o que havia confundido sua mente, e tudo, e tudo. E por mais que não soubesse o que fazer, andava a calçada, já calcada de asfalto-pó e cheirando cheiros-mil de modernidade cavalesca.

            Sentia, entretanto, lá no fundo, um pingo miúdo da saudade. Antes, em sua rispidíssima coroa romana, o que lhe apontava era a saudade do que nunca fora. Porém, agora sentia que, no fundo, era o que era não meramente por ser como era, mas era aquilo que, por mais que desejasse não ter sido, foi-lhe dado como o merecido, em parte por crer com tanta veemência que não o seria que acabou por assim se transformar. E Flor e os meninos, que não eram mais meninos, não poderiam pagar por ele assim o ser. Porque não sabiam como no fundo realmente era e porque viveram em um mundo tão feliz e tão displicente em relação ao que ele, um dia em sua juventude, julgara como primazia que não faziam a idéia de saber quem realmente era o marido, quem era o pai, porque até então ele sempre lhes fora mera figura ilustrativa, um ator, um artista, o que realmente era e o que nunca julgou possível admitir para o mundo, porque já havia se transformado, a seu ver, em um monstro rugoso, pedregoso, que não admitia uma alto-complascência de quem lamenta e choraminga as vidas em seus por dentros. Por mais que já tivesse sido o tudo, e por mais que já houvesse tresbandado alguns anos para o lado mais próximo da morte do que o da vida sabia que em algo, talvez, dali pelo adiante, poderia ser diferente.

            Sentou-se sobre um banquinho, desses de praça, prostrado onde o mar fazia volta e a calçada dava lugar aos rochedos da quadros de galeria. Voltar ou ficar? Pontuar ou permanecer?

            Sentou-se então um velhorote ao seu lado. Sem qualquer fio de cabelo, óculos escuros, de um porte um tanto atlético, peito estufado nas pintas de um soldado do oficialato, que se fosse um pouco mais ríspido seria como ele alguns anos além dali.

 

– Aceita?, ofereceu o velhorote.

– Não bebo água de coco. Essas aqui têm gosto de fábrica. Obrigado!

– Essa aqui não. Pode provar que é das boas!

– Mesmo assim, obrigado.

 

            Fitou o velhorote na indiferença. Mesmo assim, era a cara e a cor e a lembrança de algum alguém, e só algum; era bastante parecido…

 

– Meu amigo, você até que me lembra alguém.  Eu tinha uma coroa dessas na cabeça quando fazia a passagem que você está fazendo.

 

            Riram; onomatopèicamente.  

 

– Essas pedras aqui têm história! Ta vendo isso tudo? Eu vi tudo isso quando tudo era virgem feito Iracema. A gente trazia as menininhas nas pedras, algumas vezes ficávamos até de madrugada.

– O senhor também namorava nas pedras?

– É difícil saber quem nunca brincou de pedreira por aqui!

 

            Apresentaram-se. Batiam em nome e em conversa.  

 

– Eu aceito da água.

– Prove porque é boa!

– Realmente. Não parece com essas coisas de química que a gente bebe pelas vidas por ai afora.

– É…

 

            Os dois poderiam ficar naquele diálogo geracional por tempos muitos. O velhorote, de mesmo nome seu, olhou os ponteiros do relógio. Disse de partida.

 

– É dura a dor do parto, mas ele tem quer ser feito! É assim que começa a vida…

– Sem dúvidas!

 

            Riram geracionalmente, cumplicidamente, pela última vez. Foram-se, cada um para um lado, cada um para seu lado, diferentes em sua própria igualitude. O espaço no tempo não os fizera ver que conversavam consigo mesmos, trinta anos atrasados para frente, trinta anos adiantados para trás.

 

***

 

            Não mais do que cinco, nem menos que seis. E sentiu o olho embaçar profundo, e a miopia voltava, e tudo doía, a consciência. E viu-se! Viu-se mais que nu, mais que próprio, mais do que fora. Vira-se meninote, vira-se jovem loquaz, vira-se estudante-rapaz, vira-se, por fim, terminando seus tempos. Não se vira em sua idade. Porque talvez não existira… e porquês… e mais porquês.  Sentiu o peso dos olhos, a miopia, sentiu os cabelos que caiam e os óculos que voltavam, e a vida que volta em marcha, e todo o surrealismo que passara, cada tempo de tanto que voltava, e tudo vinha, vinha tudo, sem parar e sem momentos, e sem tempos, e sem ponteiros de tique-taque.  

 

            Como uma locomotiva, acordou e tombou dos trilhos sobre as chinelas dorminhocas, acordando os buás do sono de Flor.

 

– Flor! Flor!

– Quê…?

– Você também viu?

– Quê…

– Era eu, era eu, era eu! Eu era!

– Claro que é você!

– Não! Eu disse que eu é que era!

– Amor, você sempre foi você.

– Não, não fui! Eu fui outro! Eu também sou outro!

– Você e esses assuntos… você deve ter sonhado, pesadelado… que horas são?

– Você com essa mania de nunca acreditar no que eu falo. Não deve ser mais do que cinco, nem menos que seis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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LÚCIO MOREIRA ANDRADE

GUARAPARI, 15 DE OUTUBRO DE 2009

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